Hayek e o Conservadorismo

Muita gente costuma apontar o artigo Por que não sou conservador, do Hayek, como argumento definitivo pelo qual ele não era conservador. Entretanto, há muito mais nuances aqui do que simplesmente a alegação de Hayek.

Primeiro, no próprio artigo vemos algumas coisas peculiares. Segundo próprio Hayek, no artigo:

O verdadeiro conservadorismo é uma atitude legítima, provavelmente necessária, e com certeza bastante difundida, de oposição a mudanças drásticas. Desde a Revolução Francesa, representa um papel importante na política européia. Até o surgimento do socialismo, o oposto do conservadorismo era o liberalismo. Este conflito não encontra equivalente na história dos Estados Unidos da América, porquanto o que na Europa se chamava “liberalismo” aqui representava a tradição comum, sobre a qual fora constituído o Estado americano: assim, o defensor da tradição americana era um liberal no sentido europeu (3). A confusão piorou com a recente tentativa de transplantar para a América o tipo europeu de conservadorismo, que, por ser alheio à tradição americana, assumiu caráter de certo modo singular.

(3) – B. Crick, “The Strange Quest for na American Conservatism”, Review of Politics, XVII (1955), 365, afirma com razão que “o Americano normal que se intitula ‘conservador’ é na verdade liberal”. Parece que a relutância desses conservadores em recorrer a essa denominação, mais adequada, só começou com o abuso do termo durante a época do “New Deal”.”

Ou seja, Hayek acredita que o “verdadeiro conservadorismo” é legítimo e necessário, principalmente por se opor a mudanças drásticas. Eu creio aqui que por “verdadeiro conservadorismo” ele defina o conservadorismo ideal, o qual não é o que ele critica no artigo. Ele ainda diz que o conservadorismo da tradição americana é basicamente liberalismo, pois queria preservar a constituição e os ideias liberais americanos. Mas, mais importante: ele diz que, desde a Revolução Francesa, o conservadorismo é algo importante. Essa é outra faceta de Hayek: tal como uma de suas maiores influências intelectuais — Edmund Burke — ele era um forte crítico da Revolução Francesa [1].

No decorrer do artigo, Hayek se denomina como um “Old Whig”. Para quem não sabe, Whig era um partido liberal inglês dos séculos XVII a XIX, que se opunha ao partido Tory, conservador. Segundo Hayek — e ele está correto aqui — Burke era (e se definia como) um Whig. O próprio Burke tem um livro chamado An Appeal from the New to the Old Whigs.

Hayek diz, no mesmo artigo:

“Macaulay, Tocqueville, Lord Acton e Lecky certamente se consideravam liberais e com justiça; e mesmo Edmund Burke permaneceu um Whig da velha guarda até o fim e estremeceria à simples idéia de ser considerado um Tory.” 

Ou seja, ele se classificava como fazendo parte da tradição de Burke e Tocqueville, dois que, para muitos, são classificados como conservadores (principalmente o primeiro, que muita gente considera o “pai do conservadorismo”). Mais ainda, em outra parte Hayek diz:

“Ficaria extremamente orgulhoso de me definir um liberal, se liberalismo ainda tivesse o significado que lhe atribuiu um historiador inglês que, em 1827, falava da revolução de 1688 como o “triunfo dos princípios que, na linguagem de hoje, são chamados liberais ou constitucionais”, ou se ainda pudéssemos, com Lord Acton, classificar Burke, Macaulay e Gladstone como os três maiores liberais, ou se fosse ainda possível, com Harold Laski, considerar Tocqueville e Lord Acton “os liberais mais autênticos do século XIX” (18). Porém, por mais que me sinta tentado a julgar o liberalismo desses pensadores um verdadeiro liberalismo, devo reconhecer que os liberais do continente europeu, em sua maioria, defenderam idéias às quais aqueles pensadores se opuseram firmemente e que foram motivados mais pelo desejo de impor ao mundo um padrão racional preconcebido do que pela vontade de favorecer uma evolução espontânea. O mesmo ocorre como o movimento que se denominou liberalismo na Inglaterra, pelo menos desde os tempos de Lloyd George.”

Logo, percebe-se que Hayek os vê como liberais, só que em uma definição diferente.

E esse mesmo trecho nos mostra que ele não gostava muito do liberalismo europeu — mesmo que esse defenda a liberdade econômica — por seu extremo racionalismo, que Hayek sempre repudiou em seus trabalhos. Essa rejeição do racionalismo extremo é comum em conservadores como Oakeshott, Russel Kirk e o próprio Edmund Burke.

O próprio Russel Kirk, em uma crítica aos libertários, em certo momento cita Hayek:

“Qualquer um que tenha sido muito influenciado pelo pensamento de Edmund Burke (1729-1797) e de Alexis de Tocqueville (1805-1859) – como o professor Hayek e este comentarista – põe-se firmemente contra ideologias.”

Embora Hayek não se diga contra ideologias (coisa que ele confirma explicitamente [2]), tem algo de correto na fala do Kirk quando consideramos essa atitude anti-racionalista de Hayek, que acaba sendo anti-ideologia de uma forma ou de outra.

Roger Scruton, um dos mais famosos conservadores vivos (e de linha britânica), em seu artigo Hayek and Conservatism, classifica Hayek como conservador:

“Embora seja verdade que rótulos são menos significantes do que as coisas que eles correspondem, é importante, apesar de tudo, reconhecer que os argumentos e idéias centrais de Hayek fazem parte da tradição conservadora, e que sua defesa da liberdade parte de premissas, e chega a conclusões, que o alinha a Burke contra Paine, de Maistre contra Saint-Simon, e Hegel contra Marx. Nesse capítulo, portanto, defenderei a visão de Hayek como um importante teórico do conservadorismo, ao mesmo tempo sugerindo maneiras em que sua filosofia está, também, aberta a críticas de um ponto de vista conservador.”  Roger Scruton, Hayek and Conservatism

Então por que Hayek criticou o conservadorismo?  

Tudo parece indicar que Hayek era um conservador. Eu diria que ele pode ser considerado como tal, caso a tradição de conservadorismo que observamos é a tradição britânica.

Em Por que não sou conservador, Hayek criticou o conservadorismo continental. Em linhas gerais, esse conservadorismo é extremamente religioso e busca a volta de grande parte de, se não todas, as estruturas do Antigo Regime. Ele nos dá uma pista aqui:

“Por mais reacionários que possam ter sido na política homens como Coleridge, Bonald, De Maistre, Justus Möses ou Donoso Cortès, eles mostraram uma compreensão do significado das instituições que evoluíram espontaneamente, como por exemplo, o idioma, o direito, a moral e as convenções, que antecipou as perspectivas científicas modernas, que poderia ter sido útil aos liberais. Mas a admiração dos conservadores pela evolução espontânea geralmente se aplica apenas ao passado. Em geral, falta-lhes a coragem de aceitas as mudanças não planejadas das quais surgirão novos instrumentos da realização humana.

Mais ligações entre Hayek e o conservadorismo

Existe um artigo que relaciona o pensamento de Hayek com o Edmund Burke. Segundo ele, os dois estão na mesma tradição:

“A tese desse ensaio [The Liberalism/Conservatism of Burke and Hayek] é que o credo político implícito de Burke é, em todos os aspectos essenciais, a doutrina articulada pelo filósofo social do século XX F. A. Hayek. O objetivo de Hayek era, ele dizia, re-estabelecer ou sistematizar aqueles princípios básicos cuja observação gerou e sustentou os governos constitucionais ocidentais e a sociedade livre. Os princípios “liberais clássicos” articulados por Hayek foram também aqueles que inspiraram e guiaram Burke.” Linda C. Raeder, The Liberalism/Conservatism of Burke and Hayek

Edward Feser, embora um conservador católico-tomista, diz que um fusionismo entre liberais (libertarians) e conservadores (tomistas) — tal como ele define — só poderia ser possível com base em Hayek, e por mais nenhuma outra:

“Qualquer que seja o julgamento final de sua filosofia, Hayek deve ser levado a sério. Mas os pretensos fusionistas em particular têm razão em considerar seu pensamento, e se perguntar quanto dele eles podem aceitar. Um duradouro casamento entre libertários e conservadores baseado nele parece improvável. Mas tampouco pode ser possível sob qualquer outra base.” Edward Feser, Hayek and Fusionism

Ele também diz que uma sociedade baseada na ideologia de Hayek seria, sem dúvidas, bem conservadora:

“É significativo que as ideias de Hayek eram conservadoras e moralistas da forma como eram apesar de não serem, como as ideias de Locke, baseadas em premissas teológicas ou até na noção de direitos naturais.” Edward Feser, The Trouble with Libertarianism

“Uma sociedade auto-conscientemente guiada pelos princípios do tipo lockeano, smithiano, hayekiano ou aristotélico irá ser, obviamente, uma sociedade de um caráter amplamente conservador, enquanto uma sociedade auto-conscientemente guiada pelos princípios do tipo contratualista, utilitarista ou ‘economicista’ será, obviamente, uma sociedade de um caráter amplamente anti-conservador.” Edward Feser, The Trouble with Libertarianism

Não podemos nos esquecer, também, que os governos do século XX que mais apoiaram as ideias de Hayek — os de Tatcher e Reagan — tinham uma notória e reconhecida essência conservadora.

Bônus 1 – Roger Scruton sobre Hayek

Em uma entrevista, Scruton diz:

“Eu fiquei surpreso em descobrir que o departamento político da livraria da minha faculdade continha amplamente livros marxistas ou sub-marxistas, e que grandes pensadores conservadores, como Burke, de Maistre e Hayek dificilmente seriam encontrados ali, e que as revistas eram quase todas uniformemente esquerdistas.”

Scruton explica bem por que o pensamento de Hayek tem uma essência conservadora:

“Em um postcript à obra The Constitution of Liberty (1961), intitulado ‘Por que não sou um conservador”, Hayek se distanciou daqueles cuja maior preocupação na esfera política é em conservar as coisas existentes e salvaguardar valores tradicionais. Apesar disso, o pensamento de Hayek tem se voltado de forma crescente em uma direção conservadora, enquanto ele tem reconhecido as implicações sociais abrangentes de suas teorias. Sua ideia central é de que a sociedade é fundada sobre um conhecimento disperso, que é tanto prático quanto tácito. Tal conhecimento não pode ser contido em uma única mente pessoal, e existe ativamente apenas nas circunstâncias de associação livre. Essa ideia pode ser aplicada não apenas na esfera econômica (onde leva a uma versão revisada da teoria da ‘mão invisível’ de mercado de Adam Smith); mas também em toda esfera em que seres racionais estão em potencial conflito e em necessidade de coordenação. Os trabalhos de Hayek têm, portanto, coberto vários tópicos: psicologia, sociologia, direito, política e economia, para o último dos quais ele recebeu o Prêmio Nobel. (…) 

Em uma série de ensaios – Direito, Legislação e Liberdade (1982) – . . . Hayek deu uma súbita exposição de seu pensamento; enquanto em seus últimos trabalhos – The Fatal Conceit (primeiro volume, 1989) – ele tem começado a sintetizar suas razões para a desconfiança das modernas formas de governo popular, dentre as quais o socialismo permanece, para ele, o exemplo principal de tolice.” Roger Scruton, Conservative Texts, p. 94

Obs.: Scruton está certo ao enfatizar uma coisa: Hayek se direcionou ao conservadorismo principalmente nos últimos anos. Embora podemos ver claros traços de conservadorismo (como apresentado aqui) em sua obra Individualism: True and False, já da década de 40, e em The Constitution of Liberty (1960), alguns traços, como a alegação de que a religião de certa forma tem uma importante função na sociedade (inclusive para preservar a liberdade), encontramos mais nas suas últimas obras, como The Fatal Conceit (1988). Isso inclusive também foi enfatizado pelo monarquista, grande crítico do igualitarismo e grande amigo de Hayek, Erik von Kuehnelt-Leddihn [3]. A maioria das citações que colocarei abaixo são dessa sua última fase, embora tenha uma já da década de 40.

Bônus 2 -Citações conservadoras de Hayek

Aqui vão algumas citações de Hayek alinhadas à visão conservadora de mundo:

“O grande conflito moral… que tem tomado terreno nos últimos cem anos ou até nos últimos trezentos anos… é essencialmente um conflito entre os defensores da propriedade e da família e os críticos da propriedade e da família” F.A. Hayek, “Individual and Collective Aims,” in Susan Mendus and David Edwards, eds. On Toleration (Oxford: Clarendon Press, 1987), p. 38-39

“Que o verdadeiro individualismo afirma o valor da família e de todos os esforços comuns da pequena comunidade e do pequeno grupo, que ele acredita em autonomia local e associações voluntárias, e que de fato seu argumento se sustenta largamente na asserção de que muito daquilo para o que se usualmente invoca a ação coercitiva do Estado pode ser melhor feito pela colaboração voluntária, não precisa ser mais enfatizado. Não pode haver maior contraste em relação a isso do que o falso individualismo, que deseja dissolver todos esses grupos menores em átomos que não possuem outra coesão a não ser as regras coercitivas impostas pelo Estado, e que tenta tornar normativos todos os laços sociais em vez de usar o Estado primordialmente como uma proteção do indivíduo contra a arrogação de poderes coercitivos pelos grupos menores. Tão importante para o funcionamento de uma sociedade individualista quanto esses grupos menores de indivíduos estão as tradições e convenções que se desenvolvem em uma sociedade livre e que, sem ser impostas, estabelecem regras flexíveis, porém normalmente obedecidas, as quais tornam o comportamento das outras pessoas em um alto grau previsíveis. A disposição para se submeter a tais regras, não meramente enquanto se compreende sua razão, mas enquanto não existe motivos definitivos para o contrário, é uma condição essencial para a evolução gradual e melhora das regras do intercurso social; e a ordinariamente prontidão para se submeter aos produtos do processo social dos quais ninguém pode conhecer, é também uma condição especial se não se deseja usar a compulsão. Que a existência de convenções comuns e tradições entre um grupo de pessoas irá permiti-las trabalhar juntas suavemente e eficientemente, com muito menos organização formal e compulsão do que em um grupo sem estrutura comum é, certamente, trivial. Mas seu contrário, embora menos familiar, provavelmente não é menos verdade: que a coerção pode, provavelmente, apenas ser mantida a um mínimo na sociedade onde convenções e tradições têm feito o comportamento dos homens em uma grande extensão previsíveis.” Hayek, Individualism and Economic Order, 1948, p. 22-24.

“Nós devemos em parte às crenças místicas e religiosas e, eu acredito, particularmente às principais crenças monoteístas, aquelas tradições benéficas que têm sido preservadas e transmitidas… Se termos isso em mente, nós podemos compreender melhor e apreciar aqueles clérigos que dizem ter se tornado de certa forma céticos sobre a validade de alguns de seus ensinamentos e ainda continuaram a ensiná-los porque eles temeram aquela falta de fé que levaria ao declínio da moral. Não tenho dúvida de que eles estavam certos… “ F.A. Hayek, The Fatal Conceit (Chicago: University of Chicago Press, 1989), p. 136-137

“Eu duvido que qualquer regra moral possa ser preservada sem a exclusão daqueles que regularmente a infringem de uma companhia decente – ou até mesmo sem que as pessoas não permitam seus filhos se misturarem com aqueles que possuem más maneiras. É pela separação dos grupos e por seus princípios distintivos de admissão que sanções ao comportamento moral operam.” Hayek, Law, Legislation, and Liberty, p. 171

“A civilização é mantida não por meio da concessão de um ‘direito a respeito e tratamento igual’ àqueles que quebram o código. Nem podemos nós, pelo propósito de manter nossa sociedade, aceitar como moralmente legítimas todas as crenças morais que são mantidas com igual convicção, e reconhecer um direito ao conflito de clãs ou infanticídio ou até roubo, ou qualquer outra crença moral contrária àquelas crenças sobre as quais o funcionamento de nossa sociedade repousa… Para a ciência da antropologia, todas as culturas ou regras morais podem ser igualmente boas, mas nós mantemos nossa sociedade tratando as outras como menos boas.” Hayek, Law, Legislation, and Liberty, p. 172

“A moralidade dever ser… uma restrição à completa liberdade, ela deve determinar o que é permissível ou não… as dificuldades começam quando nós perguntamos se a tolerância requere que permitemos, em nossa comunidade, a observância de um sistema moral completamente diferente, mesmo que uma pessoa o faz de forma inteiramente consistente e conscientemente. Eu temo preferir duvidar se podemos tolerar um sistema de moral completamente diferente dentro de nossa comunidade, embora não seja de nossa preocupação quais regras morais outra comunidade obedece internamente. Eu temo que deva existir limites até mesmo para a tolerância.” Hayek, “Individual and Collective Aims,” p. 47.

“Nós nos bajulamos imerecidamente se representamos a civilização humana como inteiramente o produto da razão consciente ou como o produto do desenho humano, ou quando assumimos que está necessariamente em nosso poder recriar ou manter o que nós construímos sem saber o que estávamos fazendo. Embora nossa civilização seja o resultado da acumulação do conhecimento individual, não é por meio da combinação explícita ou consciente de todo esse conhecimento em qualquer cérebro humano, mas pela sua encorporação em símbolos que nós usamos sem entendê-los, em hábitos e instituições, ferramentas ou conceitos, que o homem em sociedade é constantemente capaz de aproveitar de um conjunto de conhecimento que nem ele nem qualquer outro homem pode possuir. Muitas das grandes coisas que o homem alcançou não são o resultado de pensamento conscientemente direcionado, e ainda menos o produto da um esforço deliberadamente coordenado de muitos indivíduos, mas de um processo no qual o indivíduo tem uma parte que ele pode nunca compreender. Elas são maiores do que qualquer indivíduo precisamente porque resultam da combinação de um conhecimento mais extensivo do que qualquer mente individual pode dominar.” F. A. Hayek, The Counter-Revolution of Science

“E, já que devemos a ordem de nossa sociedade a uma tradição de regras que nós entendemos apenas perfeitamente, todo progresso deve ser baseado na tradição. Nós devemos construir sobre a tradição e podemos apenas progredir com base em seus produtos.” F. A. Hayek, Law, Legislation and Liberty, Epílogo

“Pessoalmente, eu acredito que esse falso racionalismo, que ganhou influência na Revolução Francesa, e que, durante os últimos cem anos, exerceu sua influência principalmente através dos movimentos gêmeos do positivismo e do hegelianismo, é uma expressão da arrogância intelectual que é o oposto daquela humildade intelectual que é a essência do verdadeiro liberalismo, que saúda com reverência aquelas forças sociais espontâneas pelas quais o indivíduo cria coisas maiores do que conhece. É esse feroz e intolerante racionalismo, que é principalmente responsável pelo abismo o qual, particularmente no Continente, levou com frequência pessoas de convicções religiosas do movimento liberal aos campos reacionários nos quais elas se sentem pouco à vontade. Eu estou convicto de que, a não ser que essa fenda entre as convicções religiosas e verdadeiramente liberais seja superada, não há qualquer esperança para o reavivamento das forças liberais. Há vários sinais na Europa de que tal reconciliação está, hoje, mais perto do que já foi por muito tempo, e que muitas pessoas veem nisso a única esperança de preservar os ideais da civilização Ocidental.” F. A. Hayek, Adress to a Conference at Mont Pelerin, 1947

Conclusão

Acredito que Hayek pode ser caracterizado como fazendo parte da tradição conservadora britânica. Isso não o exclui necessariamente de ser um liberal clássico, já que a tradição liberal tal como ele definia converge em muitos pontos com a conservadora britânica (a tradição de Smith e Hume, principalmente). Entretanto, temos que saber que Hayek não concordava com o conservadorismo continental, de autores como Coleridge, Bonald, De Maistre, Justus Möses ou Donoso Cortès, o qual ele acreditava ser mais reacionário.

Notas

1 – Hayek, em seu Individualism: True and False, separa dois tipos de individualismo: um, de base inglesa, que é o individualismo verdadeiro, para ele, de autores como Adam Smith, de Tocqueville, Hume e Burke; e outro, o de base francesa, que resultou na Revolução Francesa, ao qual ele criticava. Segundo ele:

“O começo de um movimento liberal na Grã-Bretanha foi logo interrompido, contudo, por uma reação contra a Revolução Francesa e uma desconfiança de seus admiradores na Inglaterra, os quais se esforçaram por importar para a Inglaterra as ideias do liberalismo construtivista ou Continental. O fim desse desenvolvimento inglês inicial de liberalismo é marcado pelo trabalho de Edmund Burke quem, depois de sua brilhante reafirmação da doutrina Whig, em defesa dos colonistas americanos, violentamente se virou contra as ideias da Revolução Francesa.”Hayek, Liberalism, in: Studies in Philosophy, Politics and Economics p. 125

E em Os Fundamentos da Liberdade (p.232-233), ele comenta, sobre a Revolução:

“O fator decisivo que tornou tão infecundos os esforços da Revolução para ampliar a liberdade individual foi o fato de que a própria Revolução criou a ideia de que, como finalmente o poder tinha sido colocado nas mãos do povo, todas as salvaguardas contra o abuso deste poder se haviam tornado desnecessárias. Pensava-se que a instauração da democracia impediria automaticamente o uso arbitrário do poder. Não obstante, os representantes eleitos do povo logo mostraram que estavam muito mais preocupados com que os órgãos executivos atendessem aos seus objetivos do que em proteger os indivíduos contra o poder do Executivo. Embora, em muitos aspectos, a Revolução Francesa houvesse sido inspirada pela americana, nunca pôde alcançar o principal resultado desta: uma Constituição que limitasse os poderes da legislação. Além disso, desde o começo da Revolução, os princípios básicos de igualdade perante a lei foram ameaçados pelas novas exigências dos precursores do moderno socialismo, que reivindicavam uma égalité de jait em lugar de uma simples égalité de droit.”

2 – “Se não estou enganado, o desprezo pela ‘ideologia’, hoje em moda, ou por todos os princípios gerais ou ‘ismos’ é uma atitude típica de socialistas desiludidos que, forçados a abandonar a própria ideologia pelas contradições que lhe eram inerentes, concluíram que as ideologias são errôneas e que, para sermos racionais, devemos dispensá-las todas. Mas é impossível ser orientado somente, como eles supõem, por objetivos específicos e explícitos conscientemente adotados, e rejeitar todos os valores gerais cuja utilidade para a obtenção de resultados específicos desejáveis não pode ser demonstrada (ou ser orientado somente pelo que Max Weber chama de ‘racionalidade voltada para objetivos’). Embora seja, reconhecidamente, algo que não se pode ‘provar’ (ou demonstrar como verdadeiro), uma ideologia pode perfeitamente ser algo cuja aceitação generalizada é a condição indispensável à consecução da maior parte de nossas metas especifica.” (F. A. Hayek, Direito, Legislação e Liberdade, p. 65)

3 – “Agora, se o homem é um criador e uma pessoa, ele necessita de possibilidades para exercer sua criatividade, e para isso ele necessita de liberdade. Aqui, então, está a demanda por liberdade. Essa é uma descoberta que Hayek — a quem eu realmente conhecia muito bem — muitíssimo fez no fim de sua vida. Em seu último livro, ele subitamente vê que a religião tem alguma relação com a liberdade, uma descoberta que Mises nunca fez. A compreensão de que a religião pode criar uma demanda por liberdade é muito importante.” Erik von Kuehnelt-Leddihn, Christianity, The Foundation and Conservator of Freedom

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